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10 estados de espírito de um desempregado

8.10.15


Hoje é o último dia de trabalho de uma das minhas melhores amigas. Quem está num emprego há algum tempo (há mais de um ano, vá!) habitua-se a uma série de rotinas e a uma vida que vai, forçosamente, terminar. A boa notícia é que, muito provavelmente, o recém-desempregado irá permanecer desempregado durante pouco tempo e irá para um lugar melhor. A má notícia é que, independentemente de a pessoa ter apresentado a própria demissão ou ter sido despedida, de ter um novo emprego à espera ou entrar na selva da busca de emprego, irá passar por estas 10 fases. É certinho e direitinho.

1 – A tristeza
Oh, como é grande e profundo o meu pesar! E agora, como irei levantar-me de manhã todos os dias sabendo que já não vou para a Rua Quirino da Fonseca? Já não vou estar a trabalhar numa actividade que conhecia de trás para a frente, já não vou fazer parte daquela equipa, não vou voltar a ver aquele escritório de que tanto gostava. Oh vida cruel!

2 – O passado cor-de-rosa
Eu não estava assim tão infeliz, é exagero teu! Sim, ganhava só 700 euros, o que era uma bela merda, mas olha, era dinheiro certinho ao final do mês. A sério, nunca se atrasaram no pagamento. Era tudo tão lindo. O meu chefe era o mais simpático, os meus colegas eram uns fixes, o escritório ficava pertinho do metro, aprendia uma coisa nova todos os dias. Ai… que saudades.

3 – As desculpas esfarrapadas
Oh, mas para quê ganhar mais de 700 euros? Dava perfeitamente para viver. Pronto, depois de pagar a renda, a luz e o MEO só me sobrava 100 euros, mas pff, dava perfeitamente para viver. Quem não tem dinheiro não tem vícios, nunca ouviste? E a vida não é só dinheiro. Eu tinha um subsídio de alimentação, acreditas? Pois é, todos os meses tinha um almoço garantido. Melhor ideia de sempre!

4 – As saudades dos colegas
Eu tinha a melhor equipa de trabalho de sempre! A sério, eram os colegas mais generosos, mais engraçados, mais simpáticos. Aliás, eram mais do que colegas, eram amigos. Pois é, estiveram lá quando eu acabei com o Tiago. Estiveram lá quando eu fui assaltada. Estiveram lá para beber um copo no final do dia. Sempre com uma palavra de apoio. Pá, adoro-os e é uma amizade que vai durar para sempre. Tenho de lhes telefonar todos os dias!!!!

5 – A conformação
Bem, a vida continua. Isto é tudo muito bonito, mas acabou e tenho de olhar em frente. Vou aproveitar para dormir esta semana inteira. E encomendar pizzas à noite. E ver séries pela madrugada dentro sem a preocupação de me levantar de manhã. Liberdade, liberdade!

6 – O tédio
I’m bored!!!!! Já vi todas as temporadas do Breaking Bad (sim, eu sei que já acabou há uma série de tempo mas, tipo, eu trabalhava e nunca tive tempo para seguir o fio à meada), já sei o que se passou no Game of Thrones e já terminei todos os episódios do Scandal também. Já estou farta de ver televisão e de dormir!

7 – A ansiedade
Preciso de um novo trabalho JÁ! Bolas, ando a enviar 5 CV por dia e ainda nada? Nem uma resposta dos filhos da puta dos recursos humanos de nenhuma empresa? Mas que falta de respeito é esta? Preciso de ganhar dinheiro, preciso de ter um sítio para onde ir todas as manhãs, não fui feita para ser dondoca! Porra para isto, pá!

8 – O despertar para a vida
Ena pá, tenho 4 entrevistas só esta semana! Finalmente começaram a responder-me aos e-mails. Let’s do this, bitches! Estou aqui para botar pra quebrar, to kick ass e todas as expressões idiomáticas que puderem pensar para VAMOS A ISTO!

9 – O entusiasmo frenético
Encontrei um trabalho novo, finalmente! Foram 3 semanas de muita tensão, já não aguentava  mais aquela vida de não fazer nada! Vá apanhar no rabo, Dr. [nome do chefe que dispensou os teus serviços]. Aqui vou ganhar 1200 euros. Alguém finalmente reconhece o meu valor. Porra só perdi tempo naquela empresa!

10 – A rotina

Foda-se… levantar-me às 6 da manhã para ir trabalhar? A sério, ninguém merece! Thank God it’s Friday!

Carta aberta a Joni Mitchell

1.4.15


Querida Joni,

Como é que vai a vida?
Nunca te contei, mas durante dois anos eu tive uma música tua para meu despertador. Era a "Little Green", que conta a história da tua filha que deste para adopção quando não tinhas vida para pensar em mais ninguém. Apesar de poder ter sido uma escolha discutível para música de despertar (deprimente e tal), são os acordes iniciais mais doces que já ouvi. E eu de manhã preciso é disso: sons doces. Não me venham com grandes alegrias àquelas horas.
Sei que estás doente e foste parar ontem ao hospital. Eu queria pedir-te só para te aguentares à bronca ainda mais uns 10 ou 15 anos, se não for pedir muito. É que eu ainda te quero ouvir a cantar ao vivo e não estou preparada para te ver partir. No ano passado já foi o Robin Williams, e antes a Whitney e o MJ e, olha, uma pessoa não aguenta tudo assim de seguida.
Chamam-te "ícone de Woodstock". Sei que supostamente é uma coisa bonita de se dizer, mas tu és tão mais do que isso. Tens o condão de transformar uma qualquer música de desamor num hino à vida e à esperança. Passaste de soprano a contralto depois daquele nódulo nas cordas vocais que te transformou a voz e, consequentemente, o estilo, mas a tua essência permanece. E, cá entre nós, eu gosto mais da tua voz em versão grave. Voz de quem tem histórias para contar, enquanto fuma mais um cigarro e beberica um whiskey on the rocks. A tua voz é voz de quem vive. Sei que a tua vida já foi longa e boa, mas dá-me mais uns anos, sim? Se bem que eu, cá no fundo, sei: quem compõe uma música como A Case of You nunca está destinado a morrer.

Deixo-te um grande abraço,

RML

6 factos extremamente irrelevantes sobre a novela A ÚNICA MULHER

23.3.15




A nova novela da TVI, A Única Mulher, estreou há uma semana. É filmada entre Luanda e Lisboa e o tema principal, naturalmente, suscitou a minha curiosidade. Gostava muito de fazer um textinho simpático sobre as minhas coisas preferidas na novela, mas não conseguia encontrar um número decente para justificar um post. Também podia ter feito um texto altamente corrosivo sobre as coisas que mais detesto na novela, mas não quero ser banida de uma futura festa na TVI, por isso vamos a uma lista de factos variados, sim?


O elenco angolano é um PAVOR.

Lembram-se de ver o Paulo Pires, há quase uns 20 anos, a entrar na novela Salsa e Merengue, a contracenar com todos os actores brasileiros famosos e nós sentirmos uma pontinha de vergonha nacional porque, embora ele fosse um homem bonito, era muito mau actor e envergonhava-nos enquanto povo? Pois, é a mesma coisa que se passa nas cenas entre os actores angolanos e os portugueses. Os actores portugueses são os novos actores brasileiros. E os actores angolanos são os actores portugueses de há 30 anos.

Os angolanos já ameaçavam tomar conta da televisão portuguesa. Primeiro foi o Voo Directo, uma série sobre hospedeiras de voo e que que na imprensa prometia ser o Sexo e a Cidade português e cujo elenco angolano dava dó de se ver no pequeno ecrã. De tal forma que a série passava apenas às 3 da manhã, tendo como audiência específica as pessoas que regressam bêbedas de uma noite no Bairro Alto e que eram os únicos que conseguiam ver aquela série. Depois foi a Windeck. Não sei se vale muito a pena falar sobre esta novela. Não faço ideia qual é a história, mas era tudo extremamente MAU. Eu compreendo que a Micaela Reis, actriz seja na Windeck, seja no Voo Directo, é uma das mulheres mais bonitas e boazonas de sempre, mas por favor, alguém que lhe diga que ela não pode ser actriz. Não sei, ela que vá fazer outra coisa qualquer, tipo sorrir para fotografias, posar para marcas de lingerie, ser mãe, casar, whatever. Mas não pode ser actriz. 

E agora, temos A Única Mulher. Ora, Angola precisa urgentemente de actores. Isto porque o núcleo angolano é feito na sua maioria por actores não angolanos. E, ainda assim, são todos fraquinhos. Gostava de falar da representação medonha de cada um deles, mas não temos tempo. Basta-me dizer que a única pessoa de talento ali é o actor Ângelo Torres (o pai da protagonista, na personagem de Norberto Venâncio). E, guess what, ele é são tomense, nem sequer é angolano.
A Ana Sofia... pois, eu gostava de não ter de dizer isto, mas não me convence como actriz. É linda, tem estilo, é magra e alta, tudo o que queremos numa enfermeira rica, mas ainda não é actriz. Os textos não são bons, a história de amor com o rapaz não é verosímil. Sim, eu sei que é uma novela, mas podiam levar mais do que 2 minutos e um olhar para se apaixonarem perdidamente? É que isto é publicidade enganadora! Ninguém desmancha um noivado, entra em guerra com a família só por terem trocado um olhar com outra pessoa. Digo eu, but what do I know?

O tema da raça ainda é pertinente.

Na dramaturgia portuguesa, é a primeira vez que surge uma protagonista negra. Claro que a Ana Sofia é clarinha, mas é assumidamente africana: nada de cabelos alisados com químicos que fazem arder o couro cabeludo e que partem o cabelo, que é a tendência da maioria das mulheres negras em Portugal. E é a primeira que aborda sem grandes rodeios o preconceito puro e duro. A história da novela visa chamar a atenção para o linguajar do dia-a-dia (sim, chamar preto não é bonito!) e o racismo existente (seja do branco para o negro e ao contrário). Porque uma coisa é dizer "até tenho amigos que são", outra coisa é verem os vossos filhos ou filhas a namorarem com um negro ou uma negra. O caso aí muda sempre de figura. Vamos precisar de mais uns 100 anos para que as coisas mudem, mas lá havemos de chegar. Principalmente quando Portugal se tornar um país de mulatos, que é para lá que se caminha. O meu pai (negro) e a minha mãe (branca) já contribuíram um bocadinho para essa tendência. 

O carioca mais bonito do mundo não está na Globo, está nesta novela.

O melhor da novela é o Bruno Cabrerizo, o brasileiro dos olhos verdes e do sorriso mais lindo de que há memória. Vamos ter problemas, TVI. Eu preciso de ter uma vida, não posso andar a perder tempo a ver a vossa novela só por causa deste rapaz. Eu já o sigo no Instagram, por isso nem tudo está perdido. Vai dar jeito para me cruzar com ele "sem querer" em algum lado que apareça nas fotografias.

A Alexandra Lencastre. Não necessita de predicado. 

Ver a Alexandra Lencastre a chamar «preta», «macaca» e «escuridão» à Ana Sofia tem a sua piada. Acho-a, sempre achei, uma das melhores actrizes de Portugal e ela convence sempre no papel de má e de senhora rica e arrogante. Ainda por cima, é uma fofinha na vida real, o que torna tudo ainda mais interessante. Vê-la no papel de uma mulher preconceituosa e racista dá-me vontade de rir, especialmente porque ela tem ar de quem não se faz rogada perante uma pila africana.

O Matias Damásio está na banda sonora.

O Matias Damásio é o novo Paulo Flores. Sei que os portugueses que me lêem não percebem o que isto significa, mas asseguro-vos que isto são boas notícias. Ele canta este semba fantástico e é um dos melhores músicos angolanos dos últimos 30 anos.

A hipótese de ver o Graciano Dias enquanto actor secundário antes que seja tarde demais.

O actor Graciano Dias, que desempenha o papel de Diogo, empresário e futuro genro do sempre competente José Wallenstein, é um dos melhores da novela. O Diogo é mau, manipulador e racista, mas convence-me. Não me refiro aos abdominais do rapaz (são lindos), mas ao talento. E há bem pouco tempo foi o protagonista de Os Maias, por isso já sabemos que é um moço versátil. Ou muito me engano, ou este tipo vai ser o próximo grande actor português.


E vocês? O que estão a achar da novela?

(Sim, eu sou a miúda que viaja pelo mundo e que perde tempo a escrever sobre uma telenovela. Mas não contem nada a ninguém. Desmentirei tudo.)


5 coisas que me fizeram espécie nos Óscares

23.2.15


Eu sou uma grande fã do Neil Patrick Harris. Pronto, confesso, sou uma grande fã da personagem Barney Stinson, da série How I Met Your Mother, que o Neil Patrick Harris recriou na televisão durante os últimos oito ou nove anos. Acho que foi a alma da série, mesmo não sendo o protagonista, e fazia-me sempre, sempre rir. Comecei a estar atenta ao que o rapaz fazia a nível de cinema, vi-o a apresentar os Tony Awards e os Emmys e fiquei profundamente fascinada pela sua graça e talento. Portanto, sim, as expectativas para os Óscares eram altas, meus senhores. 

Quando ele entra e faz aquele número musical em tributo aos grandes filmes do cinema, Moving Pictures, a minha alma ilumina-se: eu adoro musicais, aquelas melodias pomposas transportam-me imediatamente para a infância e fico totalmente imbuída no espírito de magia da música e do cinema. Pensei: «Uau, não podia haver melhor forma de iniciar a cerimónia!». Recordou-me aquele número de abertura com o Hugh Jackman na cerimónia de 2009, que deve ter sido a melhor de que me lembro. Mas depois disso, não houve muito mais. Uma graçola bem conseguida aqui e ali, uma provocação de vez em quando, uma parte em que aparece de cuecas evocando a bela cena de Birdman em que Michael Keaton fica preso do lado do fora do teatro, em plena Times Square. Pronto, foi isso. E não foi suficiente.

Eis alguns momentos que me fizeram soltar um "ouch" sonoro:

1 - Neil Patrick Harris a chatear a Octavia Spencer
Octavia Spencer, que venceu o Óscar em 2013, com o filme The Help (As Serviçais) foi contratada para "trabalhar" durante a cerimónia. O apresentador explicou ao público que havia uma caixa blindada com as suas previsões e nomeou Octavia como a guardiã da caixa. Disse-lhe que não podia desviar os olhos da caixa, que não podia levantar-se para ir à casa de banho e que não podia ir comer. E repetiu a parte do comer, o que foi um bocadinho parvo. Durante toda a cerimónia, dirigia-se à Octavia, para se certificar de que ela estava mesmo a tomar conta da caixa. As pessoas riam-se, mas deixou de ter piada à segunda ou terceira vez. 


2 - O discurso de Patricia Arquette falha
Eu compreendo o que ela quis fazer. Desde que vieram a conhecimento os e-mails privados da Sony com os quais se ficou a saber, aliás, se confirmou que as mulheres em Hollywood, à semelhança de todo o mercado de trabalho, ganham menos do que os homens, este tornou-se um assunto sério. O discurso de agradecimento de Arquette vem ao encontro desta onda de defesa dos direitos das mulheres que se tem notado nos últimos anos, mas ela falha redondamente, ao dizer que "andámos aqui a lutar pelos direitos dos outros" (e por outros, leia-se negros e homossexuais), "agora é a vez de vocês virem lutar pelos nossos direitos também". Praticamente, ela está a excluir as mulheres negras e homossexuais da equação ou a insinuar - mesmo inconscientemente, mesmo sem maldade - que as mulheres negras e homossexuais não têm lutado pelos direitos feministas. Hmm...pá, aquilo soou-me mal para caraças. Bem longe do politicamente correcto que ela pretendia.


3 - O espanto perante o talento da Lady Gaga
A Lady Gaga rebenta com a escala, recebe uma ovação e as pessoas do mundo inteiro ficam espantadas Não sendo eu uma grande apreciadora da música da Lady Gaga, sempre lhe reconheci um talento do outro mundo. Ando atenta aos concertos ao vivo que ela tem feito (em que transforma totalmente os seus hits comerciais e ritmados em músicas acústicas, renovadas da cabeça aos pés, toca piano lindamente e compõe para si e para outros). Quem nunca lhe deu valor enquanto performer vocal, é porque não tem ouvido absolutamente nenhum. Goste-se ou não se goste. Por isso, não foi nenhuma espécie de surpresa. Quem a ouviu ao vivo, quem viu as actuações com Tony Bennett, em que aposta num registo mais jazzístico, sabe que o que ela fez nos Óscares era o que se esperava. Brilhante, sim. Mas fico feliz de o mundo ter-lhe caído aos pés.

4 - O Eddie Redmayne leva o Óscar
Atenção! O rapaz dos lábios sem cor fez um excelente papel. Um papel desafiante, em termos físicos, um papel que comporta o peso de se representar alguém que está vivo e é um dos homens mais brilhantes do último século... ele levou com a pressão toda em cima. Mas é um papel estereotipado de Óscar. Eu torcia pelo Steve Carrell ou pelo Michael Keaton - porque acredito sinceramente que nenhum dos dois terá a oportunidade de voltar a ter um papel tão forte como o de Foxcatcher e o de Birdman. Mas ganha o Eddie que só vem comprovar a famosa teoria que é preciso fazer um papel de deficiente, autista ou gay para se ganhar um Óscar. 

5 - A ausência de Angelina Jolie e Brad Pitt
Facto: um tapete vermelho sem a Angelina Jolie e o Brad Pitt não vale nada. Não sei se eles têm alguma espécie de acordo tácito com a Jennifer Aniston (quando uma está nomeada e tem de aparecer, a outra não aparece - isto costuma acontecer - mas neste caso, nenhuma das duas estava nomeada), não sei se a Jolie ficou chateada por o filme Unbroken ter sido afastado dos Óscares, mas a verdade é que o casal mais mediático e, provavelmente, o mais bonito do mundo TEM sempre de aparecer. As nossas vidas já são chatas o suficientes e precisamos de ver exemplos de amor e fertilidade quando ligamos a televisão. Está mal, Brangelina!

Para o ano há mais. É o que nos safa.

Como transferir fotografias do Instagram?

1.2.15


Eu ando sempre a dizer que sou geek e não sei que mais, mas de que vale ser geek, ou nerd, ou inteligente, ou chico-esperta se não partilhamos coisas giras com os amigos, certo? Então, vamos iniciar aqui uma rubrica nada pretensiosa chamada Rafa in Geekland, em que me proponho a partilhar convosco dicas relacionadas com tecnologia, assim no geral. Apps, sites imperdíveis, serviços web e coisas que eu uso e sem as quais não posso viver. E as boas notícias é que começamos agora com a primeira!
Já vos aconteceu publicarem uma foto bonitinha no Instagram e depois, mais tarde, terem vontade de a partilhar no blogue ou no Facebook mas não tinham essa fotografia no computador? Acabou-se a trabalheira de ir buscar a fotografia ao vosso camera roll ou galeria, enviarem-na para o e-mail, transferir a foto para o ambiente de trabalho e depois, finalmente, poderem publicar a bendita foto.
Agora basta aceder a http://www.instagrabbr.com/, inserir o vosso username do Instagram e...voilà, encontrarão todas as vossas fotos em formato .jpg. Basta carregar num botãozinho mágico que diz "save image" e ela vai direitinha para o vosso computador. Extremamente maravilhoso, não é?

Nova Iorque - a cidade em que todos sabem para onde vão

14.1.15


A sensação que eu tinha, de que consigo fazer isto, que sou uma pessoa com coragem, está agora - a 20 minutos da aterragem - a ser substituída por uma ansiedade inexplicável. Como assim, morar em Nova Iorque? Numa cidade onde não falam a minha língua, onde não vou estar amparada por uma empresa ou comunidade específica, onde não tenho amigos ou parentes, onde o custo de vida é dez vezes superior ao de Lisboa, onde não sei onde comprar fruta ou alface. Tipo... o que me vai acontecer? Estou a 5525 km, diz-me o monitor nas costas do banco da frente. E se alguma coisa me acontece?

Este pequeno parágrafo foi escrito por mim no avião no momento em que a hospedeira disse «Atenção, senhores passageiros! Por favor, apertem os cintos de segurança. Vamos preparar a nossa descida.» A minha letra está longe de ser bonita ou legível (já foi, já foi), por isso transcrevi-vos o meu desabafo na íntegra, tal qual como saiu das minhas mãos trémulas. Sim, trémulas. Eu estava nervosa, a hiperventilar, naquela sexta-feira, dia 10 de Outubro. Não sabia o que me esperava e estava longe de imaginar que em três meses tanta coisa iria mudar.

Todas as pessoas que já visitaram Nova Iorque não conseguem evitar ter um fascínio por aquela cidade. Faz parte do nosso imaginário colectivo desde sempre, é a cidade da cultura pop e, a menos que falemos dos anti-americanos, não há muita gente que não gostasse de ir lá dar uma voltinha. Bem melhor do que o bilhar grande. E também não há muita gente que tenha ido e que tenha regressado desapontado. Simplesmente porque Nova Iorque corresponde às expectativas, aos estereótipos e iguala a imagem que criámos na nossa cabeça. Eu já tinha ido de férias em 2008 e foi um sonho tornado realidade. Mas tenhamos presente desde já a seguinte consideração: ir de férias é bem diferente do que morar lá. Pagar uma renda, conciliar as despesas de uma vida boémia que se quer obrigatoriamente fazer (os 20% obrigatórios das gorjetas levam uma pessoa à falência em três tempos) com os custos de vida normais, descobrir um hobby, aprender a andar a pé e usar os transportes de modo eficaz, conseguir estabelecer uma rotina de trabalho, conhecer pessoas que vão com a nossa cara para podermos ter uma vida social. São muitas «tarefas» a riscar na nossa lista e muita pressão para conseguirmos assegurá-las todas.

Em Nova Iorque, as pessoas andam depressa. Quem anda devagar é o turista deslumbrado ou alguém do Minnesota - ou de Portimão - que acabou de se mudar para ali. Os nova-iorquinos são simpáticos - mais simpáticos do que os lisboetas - mas falam e caminham com determinação. E não abrandam por dá cá aquela palha. Somos obrigados a entrar no ritmo deles. A deixar o fraseado do «Excuse me sir, I'm sorry to bother you, but would you mind...?» e substituí-lo com um rápido «Hi, where is xxx?». Esforcei-me para pôr a primeira - e aqui está a grande desvantagem de não ter carta de condução, porque nem sequer sei se estou a fazer uma metáfora bem feita com as mudanças de um automóvel... será que «a primeira» é aquela que faz o carro acelerar ou é «a quinta»? Bem, vou seguir o meu instinto, mantenho «a primeira» - e entrar naquele ritmo desenfreado. O meu inglês solavancava nos primeiros tempos, mas rapidamente entrou num nível bastante aceitável. 

A primeira regra para sobreviver em Nova Iorque, ou na vida em geral, vá, é essa mesmo: saber para onde ir. Eu passei os primeiros dias a tentar encontrar um espaço de cowork, a tentar estabelecer uma parceria de intercâmbio em nome do CoworkLisboa, a minha casa-mãe, mas os esforços foram em vão. Eles não foram cá em cantigas de parcerias ou trocas de coworkers e eu, como tenho pouco talento para pedinchar persistir, acabei por desistir ao quinto não. Pensei que se me cingisse às dezenas, talvez centenas, de coffee shops com wifi da cidade, os também chamados coffices, conseguiria manter a produtividade e trabalhar nos meus projectos profissionais.

Se no Brasil eu pertenci a um espaço de cowork, o Templo, onde tive a oportunidade de fazer amizades e conhecer algumas das mentes mais brilhantes do Rio de Janeiro, em Nova Iorque toda a minha vida social e de comunidade estava dependente do mero acaso: pessoas que eu conhecia aleatoriamente na rua, em cafés, em casas-de-banho de restaurantes, no metro ou ao chocar com alguém ao virar de uma esquina. Pagar um espaço de cowork estava fora das minhas possibilidades - a média de uma mensalidade de uma mesa num cowork em Nova Iorque é 500-600 dólares - e as minhas únicas hipóteses eram os cafés, a Biblioteca Pública - New York Public Library - que tem várias salas com wifi, mas que, naturalmente, temos de estar em silêncio o dia todo e há pouca interacção com a pessoa do lado. 

Este foi o principal motivo para eu nunca me ter sentido em casa ou pertencente à teia social de Nova Iorque. Eu, defensora do fenómeno de coworking como factor obrigatório para a sanidade mental enquanto trabalhadora freelancer, vi-me privada de uma alavanca fundamental para conhecer pessoas. Andar à deriva pode ser bom em algumas circunstâncias. Mas quando andamos à deriva e todos à nossa volta sabem para onde vão, e vão depressa, é muito fácil sermos engolidos. Nova Iorque foi uma anaconda e eu entrei direitinha no estômago dela.


Como Nova Iorque mudou a minha vida para todo o sempre - Parte 1

Percebi que a rotina é uma coisa importante para o meu equilíbrio. Rotina não significa ir sempre aos mesmos sítios, comer sempre a mesma coisa e fazer amor sempre na mesma posição. A rotina é um conjunto de hábitos - que podem ser diversos entre si - que nos permitem estar confortáveis na nossa pele. É importante criarmos um dia-a-dia em que sabemos para onde ir. Ter um GPS e não ter um endereço de destino não serve para nada, pois não? Pronto.



Aceitar

17.12.14
No meio de uma dor de dentes que teima em não passar, estou a tentar aceitar que vou voltar mesmo para Lisboa no dia 6 de Janeiro. E vocês perguntar-me-ão: «Sim, mas qual é o drama? Não era essa a ideia original?». Era. De facto, era. Mas acho que só comecei a aproveitar isto a sério nas últimas 2, 3 semanas. Comecei a ir a vários eventos de networking, workshops, meet-ups (coisas que descobri nas aplicações EventBrite e no Meetup, por exemplo), comecei a conhecer mais pessoas, comecei a sentir as vantagens reais e concretas de estar numa cidade como Nova Iorque.
Um pouco graças a um mini-drama pessoal desenvolvi relações próximas com as minhas duas colegas de casa, a Kay e a Sandy. Tornaram-se boas companhias e boas confidentes. E não consigo ainda conceber a ideia de quebrar tudo isto, quebrar estes laços, com as pessoas e com a cidade.
Consola-me o facto de que Janeiro vai ser um mês para colocar tudo em perspectiva, para preparar a minha partida para Telavive, para onde vou em Fevereiro, e que vou estar um pouco com a minha gente. Vai ser bom. É porque não tinha de ser. [Repetir até entrar na cabeça.]

O dia em que uma desvitalização decidiu a minha vida

16.12.14
Sou uma moça saudável. Podia ter uns tornozelos mais estáveis, podia ter uns quilinhos a menos, podia ter uma visão melhor, mas no geral sou uma pessoa saudável: colesterol e glicemia nos valores certos, análises sempre bonitas e direitinhas, boa flexibilidade, força, tensão arterial perfeita. Por isso, a ideia de ir viajar pelo mundo e não ter um médico à mão não era coisa que me assustasse à partida. Assim como assim, nos últimos dois anos fui ao otorrino umas 28 vezes por estar sempre constipada mas descobri - durante esta viagem - que era a minha casa da Mouraria que me estava a matar (oi, humidade).
Ora, partindo do princípio que não ando bêbeda em Nova Iorque de stilettos, estou mais ou menos safa dos entorses (curiosamente, estou sempre de rasos quando torço o pé, mas adiante) e a vida corria bem.

Ainda não vos tinha contado, mas na última semana - devido a alguns percalços (vamos a eles mais tarde, prometo) - tenho pensado em ficar mais três meses em Nova Iorque. O mesmo raciocínio foi feito no final do meu segundo mês no Brasil: comecei a pensar que precisava de fazer e de viver tanta coisa (como ganhar uma das melhores amigas que tenho), que tinha ainda tantas pessoas para conhecer (como o Djavan, que acabei por abraçar na vida real e com quem troquei algumas palavras), aventuras (como a de gravar um videoclipe com a Isa e que estará no Youtube para o resto da vida) e viajar um bocado (Bahia, São Paulo, Maranhão, Ceará)... todas estas coisas inesquecíveis aconteceram nos 3 meses adicionais que vivi no Rio. E comecei a sentir esse mesmo nó no estômago aqui em Nova Iorque. 

No entanto, para eu poder ficar mais 3 meses, teria de obter um visto de estudante. Para tal, tinha de escolher um curso, verificar se a escola é acreditada, eventualmente pedir um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos (o que eu queria fazer custava 3500 dólares, são trocos de que não disponho), pedir aprovação do visto (que podia sempre ser recusado), encontrar uma nova casa e mudar-me, mudar o voo de regresso pela TAP e pagar cerca de 400-500 euros, faltar ao aniversário da minha mãe agora em Janeiro... Enfim, haveria muito por onde escolher, por onde stressar... E tudo isto porquê? Porque a menina Rafa acha que não aproveitou ainda o suficiente e que só agora é que começou a diversão.

Há dois dias começou a doer-me um dente. Pois. Sou uma pessoa saudável, mantenho uma rotina dentária saudável e com visitas ao dentista duas vezes por ano e nunca me doeu um dente na vida. Nos primeiros dias andei a tapar o sol com os analgésicos. E fintei a dor com algum êxito. Ontem acordei com uma dor insuportável e decidi que tinha mesmo de ir ao dentista. Ora, dentista sem seguro nos Estados Unidos, amiguinhos, é para esquecer. PARA ESQUECER. Encontrei na Internet que a NYU tinha um departamento de medicina dentária em que os estudantes atendem os pacientes, devidamente observados pelos professores e que era um serviço low-cost. Existe o mesmo em Lisboa, achei que poderia ser uma boa opção e lá fui eu para Manhattan em busca de boas notícias.

Ora, depois de pagar 75 dólares, que era o preço base da consulta, e de uma espera razoável, sou atendida. Antes de iniciarmos o tratamento, peço-lhe que me observe e me diga em quanto vai ficar, que é só para não ter más surpresas. E em boa hora o fiz. Então diz-me ela que tenho uma cárie debaixo de uma restauração num dente pré-molar. Sendo que o nervo estava morto, era necessário fazer uma desvitalização e pôr uma coroa. Tratamento que ficaria na módica quantia de 1560 dólares. You can't make this stuff up. Salta-me uma lágrima grossa. Se analisássemos essa lágrima à lupa, ela tinha um balão de fala em que dizia "Seus filhos da puta, não tenho esse dinheiro. E em Portugal uma merda de uma desvitalização não custa mais de 100 euros, seus cabrões de merda!".

Ela disse-me que seria possível fazer a primeira parte da desvitalização, que me faria passar a dor, mas que no prazo de poucas semanas teria de terminar o trabalho (tratar a raiz do dente). Esta primeira parte custava 110 dólares. Saí por uns momentos, escrevi a um amigo dentista, que me explicou logo o que se passava (sim, eu não fazia ideia de que "root canal" era "desvitalização") e me escreveu uma mensagem num inglês técnico brilhante, para que eu passasse à jovem dentista com "instruções" sobre os passos a seguir, dizendo que assim que eu regressasse ele trataria da segunda parte do procedimento. A sério, quão extraordinário tem de se ser para ter um gesto destes? (Obrigada, Pedro Laranjeira!) Fiz (a primeira parte d)o tratamento e estou 185 dólares mais pobre.

Ontem, segunda-feira, o meu regresso a Portugal no dia 6 de Janeiro ficou confirmado. Tenho três semanas pela frente, mas depois regresso a casa. Afinal enganei-me: home is where my dentist is.

Não consigo escrever!

2.12.14

Sou dura comigo. Sou mesmo muito dura.
Não só tenho uma capacidade de auto-crítica elevada, como tenho excelentes e frequentes hábitos de fustigação mental.
Esta censura aos meus gestos, pensamentos e atitudes não me impede de fazer ocasionalmente figura de parva. Mas gosto de pensar que essas tolices fazem parte do meu encanto.

Comecei a fazer um curso gratuito no Creative Live (se não conhecem ainda este site, não sabem o que estão a perder) sobre criatividade: Fulfill your Creative Purpose. Hoje houve uma espécie de debate sobre a criatividade e um dos intervenientes dizia que existem dois bloqueios para o processo criativo:
- dar demasiada atenção ao resultado
- dar demasiada à importância à forma como somos percepcionados, perdendo de vista quem somos efectivamente

Bem, não precisava de um curso para chegar a esta conclusão. 
Durante este ano, cerca de 10 pessoas tiraram-me do Facebook. Para mim, que nunca confundi o Facebook com a vida real e que sei que os meus 1779 amigos não podem ser considerados amigos na verdadeira acepção do termo, mas sim contactos, pessoas que gostamos de ler, pessoas que pertencem à nossa vida, uns com mais ou menos importância, este gesto tem uma grande importância: significa que essas 10 pessoas têm algo contra mim tão forte que não querem nem lembrar-se de que eu existo. Estas 10 pessoas removeram-me das suas vidas virtuais por várias razões: uma porque levou a mal uma chamada de atenção minha sobre o seu comportamento no meu mural; outra porque ficou ofendida com uma questão que aconteceu na vida real; outra porque se sentiu insultada por eu ter retirado um comentário agressivo que fez a um post meu. Estas pessoas tinham algo em comum: não são meus amigos na vida real. Algumas destas até me conheciam pessoalmente (uma delas há mais de 10 anos), mas não eram pessoas que me *conheciam*. Uma destas pessoas em particular, de quem não esperava uma atitude radical em relação a mim, fez-me sofrer. Literalmente. Passei a primeira semana que estive em Nova Iorque profundamente afectada por esta rejeição (que acaba por ser o problema inerente) e cheguei até a pensar que não tinha estofo para isto de escrever publicamente, de me expor na Internet.

O medo de escrever continua. Provavelmente porque me levo demasiado a sério e quero criar bons conteúdos, quero que vocês - leitores - se identifiquem, se divirtam ou, pelo menos, se distraiam comigo. Estive em conversações durante alguns meses com uma das revistas mais famosas de Portugal. Eles achavam piada ao meu Facebook e surgiu a ideia de escrever uma crónica semanal para eles. Acabei por escrever uma primeira crónica quando ainda estava no Rio de Janeiro, mas que foi rejeitada porque estava demasiado penteadinha, demasiado lambidinha, portanto, muito pouco "Rafa". Eles queriam a minha escrita colorida, atabalhoada, espontânea, despretensiosa, com asneiras até se fosse preciso. E eu fiquei de enviar uma segunda crónica, transformada e mais livre... e nunca o fiz. Andei sempre em busca de uma inspiração que não chegava, em busca de uma hora livre e despreocupada para escrever que nunca mais tive. Tinha medo, claro. Medo de alcançar uma visibilidade para a qual não estava preparada, medo de não ter disponibilidade mental para escrever semanalmente coisas giras, engraçadas e relevantes, medo de não saber lidar com as críticas (sim, porque os haters andam aí) que iriam começar a chegar. Então deixei o assunto ali quietinho.
O problema é que a sensação de assunto pendente permaneceu. Estão a ver quando têm o computador com todos os programas aparentemente desligados, mas depois fazem CTRL+ALT+DEL, vão ao Gestor de Tarefas e vêem dezenas de programas e aplicações a correr no background? Essa sou eu, essa é a minha cabeça. Então, às vezes é preciso fechar a aplicação, de uma vez por todas. Escrevi uma mensagem à editora da revista, agradecendo-lhe pela oportunidade mas que, de momento, não poderia assumir um compromisso desta envergadura. Disse-lhe que precisava de recuar um bocadinho e voltar a escrever sem me importar com os likes, com o feedback, com as opiniões alheias. E para isso tinha de assumir uma atitude mais discreta. Ela compreendeu e cada uma foi à sua vida.

Portanto, aqui estou eu para vos dizer que: 1) não tenho sentido muita vontade de escrever; 2) sou uma pessoa com sentimentos e não lido muito bem com críticas destrutivas; 3) gosto de vocês e 4) isto da escrita deve ser um exercício diário e vou fazer o meu melhor para dizer alguma coisa de jeito, mas caso isso não aconteça, mandem-me beijinhos na mesma.

A minha primeira conversa profunda com um taxista

12.10.14



Ontem esteve um dia chuvoso e frio em Nova Iorque. Depois de ter arranjado um cartão sim americano (da Go Smart Mobile que é o mais barato possível e, ainda assim, vou largar 40 dólares por mês, mas tenho até 3 gigas de Internet para poder escrever-vos e carregar fotos no Instagram), apanhei um táxi para a Union Square porque me apetecia enfiar num sítio quentinho e com livros. Apanhei um taxista do Bangladesh e fomos a conversar os poucos minutos que a corrida durava (aqui só posso apanhar táxi para distâncias curtas, porque é assim a atirar para o carote). Quando lhe disse que era portuguesa, ele disse-me logo que sabia alguma coisa sobre os portugueses e a História de Portugal. Disse-me que uma vez teve um livro de História que se chamava "The depart of Vasco da Gama". Eu fiquei contente: ao ouvir alguém a falar de Vasco da Gama numa cidade tão longe de Portugal senti-me abraçada.

Quando lhe disse que ia para a Barnes & Noble (uma grande cadeia de livrarias, tipo Fnac, mas maior), ele sorriu e disse-me:
"A Barnes & Noble é o único sítio nesta cidade onde não se gasta dinheiro". Eu anuí, com a cabeça, e ele reiterou: "Comprar livros é um investimento que fazemos em nós próprios, por isso nunca é efectivamente GASTAR dinheiro. Percebes o que eu digo?".
Claro que percebo.
No final, já quase a chegar, perguntei-lhe, naquele mesmo tom com que pergunto à minha mãe "Gostas de mim?", aquele tom em que já sabemos a resposta:
- "New York is nice, huh?"
- "I love it here..."
- "Really? "
- "New York is the best place to be."

Despedi-me, desejei-lhe uma boa vida e entrei na Barnes & Noble, decidida a gastar o meu budget inteiro da semana e a pensar: "Por que raios os taxistas de Lisboa só sabem falar de mamas?"

Nova Iorque, a minha nova casa

10.10.14




É isto, chegou o dia. 
Hoje mudo-me de mala e bagagem (a TAP só me permite levar uma) para Nova Iorque.
Confesso que ainda não sei muito bem como cheguei até aqui, sabem? Parece que anteontem estava eu sentada no sofá de uma casa da Mouraria, casa essa que já não é minha, a pensar como seria boa ideia eu ir morar em cidades interessantes por esse mundo fora durante um ano. Daí ao Rio de Janeiro foi um instante. O número de cidades passou de 4 para 5 e o período passou de 1 para 2 anos. E agora, pouco depois de ter regressado a Lisboa, já estou a ir embora outra vez.

Pois bem, deixem-me que vos diga: o entusiasmo do desconhecido nunca é tão forte como a intimidade daquilo que nos é confortável. Se me perguntassem muito a sério, eu diria que gostava de ficar sentada aqui neste banco do aeroporto, nesta Lisboa bonita que eu adoro, e não ter de ir embora e começar do zero numa cidade onde não conheço ninguém. Dá trabalho. Implica investimento emocional. Temos de descobrir forças - onde quer quer elas estejam - para abraçar um novo dia-a-dia, uma nova rotina, novas pessoas, procurando manter, ao mesmo tempo numa dança maluca, as relações estáveis que me tornaram a pessoa que sou hoje.

Sim, a zona de conforto é boa e eu gosto. Mas ter a liberdade para atravessar um oceano e esculpir uma vida quase do nada é mágico.

Já só faltam dois dias!

8.10.14
Ainda tenho uma mala de 30 kg por fazer (e sim, vou aproveitar até ao último quilo disponível), tenho lentes de contacto para comprar, um vinho do Porto para as minhas novas flatmates americanas que não sabem o que é álcool bom e muitas pessoas para beijar... isto tudo antes de sexta-feira de manhã. E depois, sim, posso começar a entusiasmar-me com os três meses na melhor cidade do mundo (dizem eles). Nova Iorque, estou a caminho!

(ainda nem acredito)

Instagrameando

5.10.14



A coisa interessante sobre o Rio de Janeiro é a seguinte: se não acreditas em Deus, vais ao cimo do Pão de Açúcar, olhas para a vista panorâmica sobre a cidade e, muito provavelmente, depois de 5 minutos estás convencido que *isto* não é um acaso do Universo. 
Tão simples quanto isto: a beleza do Rio de Janeiro devolve-nos a fé que nem sequer sabíamos que tínhamos.

Ser contemporânea do Tim Maia. Ou a razão pela qual gostava de ter nascido no Brasil.

16.9.14


Os seis meses que passei no Rio de Janeiro contribuíram para uma pequena revolução dentro de mim: a adaptação a um novo contexto (tão mais diferente de Lisboa do que se possa pensar), o gradual processo de criação de intimidade com a cidade, o desenvolvimento de uma vida social e a sorte de surgirem algumas amizades, a aprendizagem diária de hábitos culturais (saborear uma paçoquinha à tarde, comer feijão preto em todas as refeições, beber cerveja sem grandes pesos na consciência, dar um pulo na praia antes de ir para o escritório). A imersão no Brasil era de tal forma total que não raras vezes me passava pela cabeça "gostava de ter nascido aqui". E pensar isto não implica desprimor pelo meu país ou pelas minhas raízes. Implica, sim, um amor tão grande pela cidade e cultura que me acolheu durante metade deste ano.

A música sempre ocupou um lugar fundamental na minha vida. Tendo um pai músico, cresci no meio de cordas de guitarra, discos de vinil e de boa música. Ainda assim, quando fui para o Brasil conhecia muito pouco acerca do Tim Maia. Umas 3 ou 4 canções, talvez. O Tim Maia não é um cantor de massas em Portugal - é um cantor de nicho, um cantor apreciado pelos hipsters e intelectualóides. No Brasil, o Tim Maia era um rei do povo. Apesar de ter feito muito sucesso com clássicos da música romântica, o Tim Maia pôs o Brasil a dançar desde os anos 70 até aos anos 90. Foi a grande voz do soul e do (verdadeiro) funk brasileiro e não fica ABSOLUTAMENTE NADA a dever a grandes vozes negras mundiais como o Otis Redding, Barry White ou Marvin Gaye.

Para além do Lucio Battisti (cantor italiano que morreu em 1998, aos 55 anos, precisamente com a mesma idade e no mesmo ano do que o Tim Maia), nunca ouvi falar de nenhum músico que reunisse tanto consenso: toda a gente, de qualquer classe social e de qualquer gosto musical, no Brasil lhe reconhece o talento, carisma e genialidade. Continua vivo. Houve um musical sobre a sua vida, de muito sucesso e que esteve anos em cena, houve reedições de discos, é comum ver concertos de músicos actuais brasileiros, em que estes cantam uma ou duas músicas do Tim. 

Depois de ouvir muitos álbuns, de ver muitos concertos online, de ler tudo o que havia para ler sobre o Tim, ganhei uma profunda admiração por esta figura de talento e que congregava tanto ódio e amor. Conhecido por ser um homem polémico, adepto da má vida, ter mau feitio para dar e vender, Tim Maia deixa um país inteiro de luto ao sentir-se mal num dos seus concertos. Toda a gente tem alguma coisa a dizer sobre ele, toda a gente tem uma história com alguma (ou várias) das suas músicas. No próximo mês estreia no Brasil o filme sobre a vida do Tim Maia. Não vou conseguir dormir enquanto não o vir. Com ele, aprendi o verdadeiro significado do conceito de referência cultural. E sinto-me sempre um bocadinho mais carioca quando estou a ouvir a sua música.

O fenómeno Slow Travel

24.8.14

Lençóis Maranhenses, Julho de 2014. Um dos paraísos do Brasil.

O desenvolvimento das companhias low-cost provocou uma grande revolução à vida dos europeus. Antigamente - e quando eu digo antigamente, não é há tanto tempo assim, mas essencialmente anos 90 e inícios da década de 2000 - quando alguém dizia que tinha ido a Londres ou Paris, exclamávamos um "Uau!". Nem todos podiam viajar e estávamos numa altura do mundo em que viajar era, realmente, uma actividade típica de uma classe privilegiada.
Poucos anos depois, a Ryanair e a Easyjet monopolizaram as viagens low-cost da Europa, trazendo novos conceitos e pequenas maravilhas como as "escapadelas de fim-de-semana" e as "mini-férias". Por exemplo, aproximou Itália de Portugal. Para nós, portugueses, ir a Roma ou Milão era um luxo, algo digno de admiração, mas os italianos nunca tinham ouvido falar de Portugal, quando, na realidade, estamos a uns ridículos 2500 km de distância. Eu sou do tempo (e esse tempo foi em 2006), em que quando eu dizia em plena cidade de Milão que era portuguesa, as pessoas gritavam entusiasmadas "Ah, Barcelona, que lindo o teu país". Isto aconteceu-me demasiadas vezes para ser considerado uma coincidência/ignorância casual.

Quem tem uns trocos e gosta de viajar, facilmente já teve a oportunidade de viajar até 5 ou 10 cidades europeias de topo. Conto-vos o que aconteceu comigo (e que é uma coisa triste de admitir): à medida que ia viajando, ia encontrando pontos semelhantes (demasiados) nas várias cidades europeias. Ao ponto de achar que era mais do mesmo. Claro que me divertia, acabei por ir muitas vezes a destinos repetidos (Londres, Nice, Nápoles, Roma, Paris, Barcelona), claro que via sempre coisas novas e diferentes. Mas muito sinceramente, uma viagem deixou de constituir uma emoção transcedental para mim, algo pelo qual eu esperasse ou sonhasse um ano inteiro. Tal como sou capaz de ficar uma semana a pensar no domingo, quando finalmente poderei comer um kalulu feito pela minha avó, mas não sonho com um hamburguer do McDonalds. A isto que nós, europeus, fazemos chama-se fast travel. Aquilo que eu estou a fazer com o meu projecto Home is where I am chama-se slow travel

Os viajantes ou turistas que praticam o slow travel escolhem viver o processo de viagem de uma forma mais tranquila. Não existem listas de pontos a visitar que devem ser verificados rigorosamente de três em três horas, não há obsessão com os guias da Lonely Planet, não há esta coisa de voltar para casa mais cansado do que quando se partiu. Os slow travellers, por ficarem mais tempo nos destinos que escolhem (atenção, podem ser apenas uma ou duas semanas), criam uma ligação à cidade onde estão. Estabelecem uma empatia com as rotinas que vão adquirindo. Ficam o tempo suficiente para reconhecer o rosto da pessoa que mora na porta do lado do apartamento que arrendaram ou para eleger um café preferido ao qual começam a ir todos os dias. O slow traveller provavelmente até se inscreve numa escola para tirar um curso de gastronomia ou de um idioma, estabelece um contacto real com os locais e não fica na redoma, onde a maior parte de nós quando viaja num fim-de-semana, fica enfiado. É bom viajar, seja em que termos for, mas melhor ainda é sentir que começamos a pertencer a um lugar, até então, estranho.

Estive no Rio de Janeiro seis meses. Não fiz tudo o que o Lonely Planet me disse que seria bom fazer. Não fui a todos os museus que gostaria de ter ido, não fui ver um jogo no Maracanã, não fui passar um fim-de-semana em Paraty, não fui a um ensaio de uma escola de samba. Mas nadei vezes sem conta no mar agitado de Ipanema, andei de bicicleta no calçadão, bebi cerveja e suco de melancia todos os dias, fiz amigos, gravei um videoclipe, conheci o Djavan, passei tardes na Livraria Travessa a escrever, fui ver um concerto do Jorge Ben (um dos melhores concertos da minha vida), comi feijão preto todos os dias, sambei com os cariocas, vi a Copa do Mundo de perto e sempre que viajava para outras cidades no Brasil, dizia sempre à boca cheia: "Não sou turista não, eu moro no Rio de Janeiro".

Já estou cá há três semanas, mas não sinto que regressei definitivamente do Rio. Parece que a qualquer momento vou voltar e só estou em Lisboa a passar uns dias. E a coisa bonita do slow travel é mesmo essa: a certeza de que os lugares do mundo que escolhemos como casa passam a ser nossos para sempre. E que é sempre positivo quando temos a oportunidade de tornar este mundo todo um bocadinho mais íntimo.

On Robin Williams and his undignified exit

13.8.14

Here’s the deal: one of life’s biggest challenges is seeing our cultural references disappear year after year. The bad news? They can never be replaced. Ever. So we give up. We no longer fall head over heels in love with artists. ‘We’re too old for that anyway’, we say dismissively, or ‘these new kids on the block aren’t as good as old schoolers’. We continue living our lives and we are just that little bit greyer, that little bit more cynical for it.

Robin Williams passed away today. ‘Heroes never die’; ‘their legacy lives on in their films’. I will not resort to these hackneyed clichés. It wasn’t that long ago that people would not admit to liking him. As though it were a bad thing to do so. Maybe people didn’t want to come clean about it because of the crappy films he starred in, such as Night at the Museum. Maybe it was the lack of raving reviews for his last films that convinced people to zip up. I have rarely heard someone say out loud that their favourite actor was Robin Williams.

That’s beside the point. He starred in a series of films which became part of our collective imagination, belong to our past and have accompanied us on this journey we call life. That’s how it was for me, anyway. I wanted to become a doctor because I was deeply touched after seeing Patch Adams; I hated Sally Field for ages because she dumped him in Mrs. Doubtfire; the Dead’s Poet Society was the reason I wasn’t such a godawful teenager, standing by my principles and in what I believed in; in Good Morning, Vietnam I met James Brown and Vietnam before anyone told me what they even were.

What really bugs me is that Robin Williams did not deserve to die the way he did. His undignified death did not reflect the tenor of his life, nor all he stood for…at least, for the majority of us. Robin Williams should have died at 96 in his home, drifting peacefully away in his sleep, one or two more Oscar statuettes winking at him from his desk. And me? I would have been sat in front of the TV, with my grandchildren, watching the news. Upon hearing the breaking news, I would have told them who this old gentleman was and how he had been such an important figure to me throughout my life. I would have got up, headed to the kitchen and grabbed some popcorn. Marching back to the living room, I would have declared a Robin Williams weekend moviethon, so that the rest of the family could get up to speed with the talent of this man.

That is why I’m sad on this day. I’m sad because we must go on living in a world without him. And I’m especially sad for realising that a man who had the gift of making people laugh, did not have the gift to be happy.


Translation: Benjamin Barklay
Illustration: Renée Melo

Do Robin Williams e da sua saída inglória

12.8.14


É um dos preços mais cruéis de envelhecermos: as nossas referências culturais vão sendo eliminadas. Umas mais cedo do que outras, é verdade, mas à medida que os anos avançam na sua marcha imperdoável, também as figuras que nos foram familiares durante décadas vão desaparecendo. A má notícia? É que nunca são substituídas. Nós deixamo-nos disso. Deixamos de nos apaixonar por artistas, ou porque achamos que já não temos idade para essas coisas, ou porque achamos que os novos não são tão bons como "aqueles de antigamente". E cá vamos continuando a nossa vidinha, um bocadinho mais cinzentos, um bocadinho mais descrentes.

O Robin Williams morreu hoje. Vou evitar a todo o custo os clichés de que mitos não morrem e que ele viverá pelos seus filmes. De há uns tempos para cá, parecia mal dizer que gostávamos dele. Seja porque ele começou a fazer filmes de merda como Noite no Museu ou porque já há algum tempo que não tinha um filme aclamado pela crítica, raramente ouvia alguém dizer que o Robin Williams era o seu actor favorito. No entanto, ele protagonizou uma míriade de filmes que fazem parte do imaginário, do passado e da formação pessoal de cada um de nós. Falo por mim. Eu quis ser médica porque o Patch Adams me comoveu profundamente; durante anos a fio, odiei a Sally Field, porque ela era a mulher má que o abandonou no Mrs. Doubtfire (Papá para Sempre); o Clube dos Poetas Mortos ajudou-me a ser uma adolescente um bocadinho melhor, mais fiel aos meus ideais e àquilo em que acreditava; o Bom dia, Vietname foi um filme que me deu a conhecer o James Brown e o Vietname, antes que alguém me tivesse explicado o que essas coisas eram.

Eis o que mais me custa: o Robin Williams não teve uma morte digna. Ou melhor, não teve uma morte que dignificasse a sua vida e tudo aquilo que representou para a maioria de nós. O Robin Williams deveria ter morrido aos 96 anos, na sua casa, durante o sono. Na estante do escritório dele iriam estar mais uma ou duas estatuetas de Óscares. E eu estaria com os meus filhos e com os meus netos a ver o Telejornal e, ao ouvirmos a notícia da sua morte, eu explicava-lhes quem era este senhor e como ele tinha sido importante durante a minha vida. Depois eu iria fazer pipocas e faríamos uma maratona de filmes durante todo o fim-de-semana, para que a família inteira ficasse a par do talento deste homem.

Por isso, hoje é um dia muito triste para mim. Triste porque continuamos num mundo sem ele. E triste, sobretudo por saber que um homem que teve vocação de fazer os outros rir, não teve vocação para ser feliz.

Estou por aqui

20.7.14





Lençóis Maranhenses. Ainda estou sem fôlego.

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