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O padrão da infelicidade

14.7.13

Há uns tempos tive um date com um rapaz que me dizia que não gostava do trabalho dele. Lembro-me de ter sido inquisitória e ter-lhe perguntado, quase inocentemente, se ele estava a pensar fazer algo para mudar essa situação. Não me lembro da resposta, mas sei que não foi peremptório em nada do que disse. 
Quando alguém me pergunta como vai a minha vida profissional (e normalmente do outro lado está sempre alguém insatisfeito com algum aspecto da sua carreira), sinto um quase-embaraço em responder com alegria que "está tudo uma maravilha, o que eu faço é algo que eu poderia fazer de graça". 
Hipérboles à parte, conheço muita gente que não está a tirar partido da vida que tem. Sim, o trabalho não é o mais importante, mas duvido verdadeiramente que haja pessoas felizes quando têm de passar 10 horas do dia num emprego que odeiam, com um chefe que desprezam ou com colegas pouco simpáticos. Pior ainda: conheço pessoas que têm vidas laborais miseráveis e vidas sentimentais mais penosas ainda. Relações que atingiram um beco sem saída, em que já não aprendem nada um com o outro e que apenas não seguem em frente porque não sabem se algo melhor vai aparecer.
Mudei radicalmente de carreira há um ano e meio e até agora não me arrependi. E atenção, não me arrependi não porque a minha vida seja perfeita (sim, gostaria de estar a ganhar mais dinheiro, gostaria de ter possibilidades de arrendar um T2 na Calçada do Combro e não ter me cingir ao meu pequeno T1 na Mouraria, gostaria de fazer férias sem me sentir culpada ou preocupada por ter de estar a recusar trabalho nesse período, gostaria de não ter de trabalhar a um domingo simpático como o de hoje e de estar alapada no sofá a ver episódios repetidos de Sex and the City), mas porque tenho orgulho em ter quebrado um padrão. O padrão da infelicidade que me acompanhava nos empregos anteriores que tive. 
De repente, apercebi-me que me tornei - para os meus amigos - uma fonte de inspiração neste aspecto. Quando estão infelizes ou fartos do trabalho e sem saber para onde se virar, contactam-me na esperança que eu tenha uma palavra mágica para lhes dizer e que, num segundo, possam decidir o que fazer. Eu, num misto de apreço e compaixão, digo sempre o mesmo: "Todos temos um limite para a infelicidade. Pelo que vejo já atingiste o teu, por isso não chafurdes na merda e faz alguma coisa". Acenam invariavelmente com a cabeça e murmuram um tens razão. Há uma coisa comum em todos eles: sonham pouco. E provavelmente por isso continuam onde estão.

11 comentários:

  1. li tudo, gostei imenso e a "linha preferida" é:
    "Há uma coisa comum em todos eles: sonham pouco. E provavelmente por isso continuam onde estão."

    Obrigada :)

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  2. Obrigada <3
    You inspire me to be better.

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  3. Mas de facto é inspirador ver como conseguiste dar a volta à tua vida. Nem sempre as oportunidades são iguais para todos, mas sem dúvida que nos temos de mexer e procurar alternativas, e aceitar que a mudança pode não ser de um dia para o outro. A felicidade e a satisfação laboral são um work in progress, temos de ir construindo a cada passo.

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  4. Não acho que sonhem pouco. Acho que têm é mto medo da mudança, de não terem rede. E digo-te mais, há mta gente que não sabe fazer contas, estão miseráveis e infelizes no trabalho que têm, mas gastam tudo o que têm (mesmo q nao seja mto) a comprarem momentos de felicidade esporádicos e não têm um plano pra sair da cepa torta.
    O medo de mudar, o medo de não ter o dinheiro certo ao fim do mês, faz mta gente tremer. A mim também.

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  5. @Andorinha, sim, concordo em parte. De facto, o medo da mudança pode ser castrador. Eu tive muito medo de mudar: tenho quase 1000 euros de despesas fixas por mês, entre casa, escritório e segurança social. E não tenho nenhum lado para onde ir. Sim, claro que mete medo. Mas há sempre o factor risco envolvido. E é nesse aspecto que acho que sonham pouco: deixam de aspirar a outras coisas e convencem-se que "não estou assim tão mal".
    **

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  6. Rafa,qdo eu for a Lisboa agora em Setembro conversamos pessoalmente sobre isto, que te parece? ;)

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  7. Parece-me maravilhoso!!You know how to find me :))

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  8. e cada vez há menos pessoas a sonhar muito. gostei muito :)

    M.

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  9. Depois da tua resposta ao meu comentário andei a cirandar pelo teu blog e como eu sou uma rapariga que se leva demasiado a sério cheguei a este separador e a este post e revi-me imenso naquilo que li aqui.
    Sei que não é fácil sabermos o que queremos ser ou fazer em determinado pouco da nossa vida, mas será que é válido passarmos o tempo a conformarmo-nos àquilo que vai aparecendo só porque é mais fácil? Onde ficam os bons momentos nos entretantos?
    Eu sou professora e sinto que não poderia ser outra coisa :) e se não tivesse contas para pagar, até de graça trabalhava. As pessoas julgam-me tolinha por dizer isto, mas é 100% verdade.
    Em Portugal nunca fui funcionária pública e estando em vias de ir trabalhar para um colégio, aproveitei a oportunidade e vim dar aulas para o estrangeiro (via instituto camões) e agora sofro na pele os cortes as reduções de salário. É chato, sim é, bastante até, mas sinto-me feliz por fazer o que faço!
    Desapeguei-me das minhas coisas, mas as minhas pessoas (marido incluído...) fazem-me uma falta desgraçada!
    A sorte é que vou já amanhã matar saudades :))!

    Beijos e obrigada por escreveres tão bem e me fazeres pensar!

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    Respostas
    1. Querida Blanche,
      Obrigada por cirandares por aqui. Este blogue existe desde 2006, mas teve tantas fases parvas e de ausência que quase desisti dele. Regressei recentemente e ler comentários como o teu dão-me sempre um alentozinho como quem diz "tomaste a decisão certa". Em relação, à questão que abordas, fizeste o mais complexo: descobriste a tua vocação. É isso mesmo "se pudesse, até de graça trabalhava". Quando temos esse sentimento genuíno, é porque this is it. Encontrámos a nossa missão, no que toca ao trabalho. Por isso, acredito que mais cedo ou mais tarde vais ser compensada pelo teu sacrifício. Pode ser que para o ano sejas colocada numa escola a 200 metros da tua casa :)

      Beijinho!

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    2. Eu sei, já te segui doutras vezes e depois deixaste de escrever ;) Eu acho que se for para melhor, muda-se sempre e a vida tem uma maneira estranha de nos mostrar isso mesmo!
      Queria ser professora aos 10 e nunca me lembro de querer ser outra profissão qualquer. Se serei boa professora, acho que só os meus alunos e os meus formandos o poderão dizer ;) quanto aos sacrifícios, oxalá tenhas razão porque isto de estar longe é lixado! Mas eu não quero trabalhar a 200 metros de casa [até porque sei que estarei aqui até agosto de 2015:) pelo menos]! Quero continuar a fazer isto que faço, só pedia era companhia :) a ver vamos como corre.

      Beijos

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