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(Não) ser-se bonita

15.7.13



Nos últimos dias tem rodado no Facebook este vídeo, em que Dustin Hoffman fala sobre a preparação para a personagem Dorothy Michaels, do filme Tootsie - Quando ele era ela e os motivos que o levaram a aceitar desempenhar este papel. Ele queria fazer um filme sem que se parecesse com um travesti ridículo e disse aos produtores que apenas começaria a rodar se eles conseguissem maquilhá-lo e vesti-lo de forma com que ele pudesse atravessar as ruas de Nova Iorque, sem que absolutamente ninguém duvidasse que ele era uma mulher. E assim aconteceu. Quando fizeram os testes de ecrã, Dustin ficou chocado porque se achava muito feio enquanto mulher e pediu aos produtores que a Dorothy fosse mais bonita do que aquilo. Sei lá, que melhorassem o aspecto dela, a maquilhagem, a roupa, alguma coisa. E, embaraçados, disseram-lhe: "this is as good as it gets". Mais bonita do que aquilo era impossível.



Ora, o que este vídeo tem de interessante é que o Dustin Hoffman conta que chegou a casa nesse dia e explicou isto à mulher, dizendo-lhe que ia fazer um filme em que representa uma mulher muito interessante, mas que não era bonita. E que precisava que ela fosse mais bonita. E confessa-lhe, com pesar, que se encontrasse uma mulher daquelas numa festa provavelmente não falaria com ela. E custa-lhe pensar que durante a vida já teria certamente posto de parte mulheres absolutamente extraordinárias porque simplesmente não eram bonitas. E nesta entrevista, 30 anos depois do filme, conta-nos esse episódio e emociona-se, provocando toda uma comoção também para quem o ouve. 

Pronto, eu vou dizer: não sou uma mulher bonita. Aliás, vou reformular a frase: não sou uma mulher que chame a atenção pela beleza. O Brad Pitt, se se cruzasse comigo na rua, nunca se apaixonaria por mim à primeira vista ou diria "aquela mulher vai ser a mãe dos meus filhos", como ouvimos em tantas histórias de amor por aí. Se por trás existe uma mulher interessante e cativante? Talvez. Mas não é isso que os outros vêem quando me conhecem. A verdade é que vou aprendendo a lidar com isso. Habituei-me à ideia de que nunca vou ser uma pessoa que tem muitos one night stands, ou muitos namorados, que vira cabeças na estrada e que o trânsito do Marquês de Pombal muito dificilmente se deverá ao facto de eu ter atravessado a rua.

Ao ver esta entrevista do Dustin Hoffman, pergunto-me: será que as mulheres menos bonitas estão condenadas à invisibilidade? Será que estão destinadas a ter de lutar sempre um bocado mais do que as outras para serem notadas? Ou será que o amor aparece sempre e vai contra toda e qualquer imposição de padrão de beleza em vigor? Só sei que vi este vídeo três vezes e chorei em cada uma delas. Tenho aquela desconfortável sensação de uma equipa que vai para umas meias-finais do Mundial com desvantagem de golos.

Nota: Aos meus queridos amigos que, preocupados, me enviaram mensagens: sei que vocês me adoram e me acham linda e maravilhosa e um mulherão e coiso e tal. Não pensem que me ando a sentir feia. Vocês sabem que quando os tipos se interessam por mim é por uma miríade de coisas que não o meu cabelo ou o meu rabo. O que quis dizer com este texto é que não ser estupidamente bonita é uma bela perda de tempo: nos dias de hoje e, sendo a vida tão curta como é, é uma bela chatice ter de andar a provar, dia após dia, aos outros o quão interessantes nós somos. Com as mulheres bonitas, é tudo fácil. A pessoa interessa-se e pronto. O resto logo se vê.

11 comentários:

  1. Esse vídeo está fenomenal, vi 2 vezes sempre com lágrimas nos olhos e fico impressionada como uma coisa que já tomamos por simples e comum para a grande maioria das mulheres pode ser tão avassaladora nele. Dá que pensar. Eu como mulher admito que nem penso muito no assunto da beleza e no impacto que a mesma pode ter, e fico espantada como o Dustin Hoffman tenha tido a sensibilidade de reparar nesta situação.

    E tu és mesmo gira. Tenho dito.

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  2. Querida Analog, obrigada pelo comentário. :)
    Tens razão, a palavra-chave é mesmo a que usaste "sensibilidade". E quando ele diz que "it was no comedy for me"...bolas, é tão comovente, né?

    E quanto ao ser gira, muito obrigada...Vai dando para o gasto. :)

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  3. A beleza nem sempre é aquilo que está estereotipado. E todos sabemos que o que é bonito para uns, não o é para outros. Eu acho que és linda e acima de tudo tens um sorriso lindo. E isso é só para algumas. ;)

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  4. @Kitty Fane, bons olhos a vejam por aqui. :=)
    Muito obrigada pela tua mensagem. É verdade que a beleza é relativa e subjectiva, mas também existe aquela beleza objectiva...aquela beleza incontornável. E o texto ia ao encontro do oposto precisamente desse tipo de mulheres, que têm de viver com o facto de passar despercebidas.
    (e tu ainda não me viste ao vivo, eu sou só fotogénica, ah ah).

    Beijo enorme, espero que estejas bem.

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  5. Obrigada por este post, snif snif.
    Partilho a tua opinião e sensação de não ser bonita. Há dias que me sinto bem na minha invisibilidade e outros que prefiro nem olhar muito para o espelho senão perco a vontade de sair de casa lol
    O problema de não se ser bonita é que há muita gente que o é (ou assim pensamos nós), e a competição é difícil lol
    E tu és bonita :)

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  6. faço dos outros, as mhas palavras: "(...) não adianta virem me dizer mil vezes que eu sou “bonita”, porque, cá pra nós, eu não sou correta para o padrão de beleza, estou longe de ser e talvez nunca chegue a ser. Mas a questão é: por que eu deveria? Sei que isso soa altamente contraditório com o que disse até agora, mas eu quero poder ser feia. Quero que a “aceitação” que resolveria esse sofrimento não seja conseguir me ver como “bonita”, mas me ver como feia sem que isso me faça sentir dor. Que isso seja completamente irrelevante. Porque eu sou muito mais do que só a minha aparência." em http://www.alinevalek.com.br/blog/2013/07/esteticamente-incorreta/ - acho que a autora deste blog tb viu o video do Dustin Hoffman!!!

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  7. Bonita ou feia, uma estampa de mulher ou simplesmente cativante, o que interessa é que voltaste à carga e a escrever textos como estes!!
    Eu cá sou daquelas que acha que o amor quando nasce é para todos ;)

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  8. querida rafa,

    hoje tenho mesmo de te deixar umas palavras (poucas, vou tentar)!

    o vídeo é toda essa comoção, mesmo. principalmente pelo fenómeno de empatia -criado por um homem!

    milhares de mulheres sublinham esta questão e não ecoa, é preciso vir um homem para que este assunto inunde as redes sociais, curioso, não achas? :) as questões femininas, ainda hoje, estão sujeitas a uma voz masculina para impactarem o mundo, para o virar para as mulheres, e isso parece me bastante esclarecedor em relação às questões de género e a tudo que lhe está relacionado.

    sei que falas da beleza, mas esta é cobrada descaradamente às mulheres. há umas semanas, li que a betty faria foi achincalhada por ousar ir a uma praia de biquini. a mulher tem 72 anos, logo deve esconder se e tapar se porque já não e a tieta do agreste, essa, dispa se para a playboy, cobice se, desfile se com.

    ser mulher é um lugar tramado. e, quanto a mim, é preciso ter se consciência disso para alterar paradigmas que resumem as mulheres ao código binário. somos zeros ou uns. a menos que nos emancipemos desses estereótipos e que impeçamos a sua reprodução.

    não falo assim por não ser considerada bonita. pelo contrário, falo por ser apenas considerada bonita. a invisibilidade de que falas é a mesma que eu sinto. a necessidade em provar alguma coisa é a mesma que sinto. a condição é igual. e só quando consegui quebrar esse ciclo de estar sempre em esforço é que consegui aceitar me pelo que sou e encontrar um homem que também o faz.

    mas no dia da nossa cerveja, conversamos mais :)

    e tu és linda.

    beijooo

    sílvia

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  9. A pessoa interessa-se e (muito possivelmente) desinteressa-se por essas "bonitas" mais depressa que tu esfregas um olho.

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  10. Eu, já não sendo nenhuma jovem e fora do circuito comercial (?) , estou bem casada há 30 anos, mas também não faço parte daquele tipo de mulher ou jovem na altura de o ser, de ser considerada bonita, raramente me senti assim, mas como dizes , deu para o gasto. Penso como tu, que será mais fácil, quando já se nasce bonita e as coisas fluem sem necessidade de provar nada, porque está tudo à vista. Mas também nunca fiz parte dessa estirpe o que por vezes, na juventude, me deu alguns pequenos desgostos...
    Um beijinho

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