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Pouca leitura, pouca alma

26.7.11
Ando a ler incrivelmente pouco.
O trabalho, as traduções, os jornais e revistas no qual me viciei, as leituras de manuais de máquinas e ferramentas para aprimorar uma escrita que se quer técnica, os blogues, a navegação web consomem-me todo o tempo livre que tenho. Sei que é culpa minha, porque não tenho estabelecido prioridades na minha vida e ando metida num overeating de tudo o que é fácil e rápido.
Hoje lembrei-me de Rubem Fonseca. 
O último livro pelo qual me apaixonei à séria foi o seu Diário de um Fescenino. Li-o em pouco mais de 2 horas, em pé, na Livraria Arquivo em Leiria, quando ainda por lá morava e quando eles ainda permitiam que os clientes lessem os livros colocados à venda. Estamos  a falar de há 7 ou 8 anos, meus amigos. O que é dramático para uma pessoa que tem apenas 27.
Na altura fiquei embevecida com aquela velocidade da escrita, pelos detalhes tão bem descritos, pela crueza, pela masculinidade e pela leviandade do protagonista. Ou não fosse a filha-da-putice dos homens algo que me intriga tanto, desde tenra idade.
Comprei o livro alguns anos mais tarde e voltei a lê-lo e pareceu-me a primeira vez que folheava aquelas páginas e tudo me pareceu novo.
A verdade é que sinto saudade de me apaixonar perdidamente por um livro. Saudade não. Sinto falta.
Compro sempre muitos livros, começo a lê-los mas existe sempre alguma outra urgência assassina do meu tempo e da minha atenção. Depois convenço-me de que a falha não está em mim: que se se tratasse realmente de um livro apaixonante, eu não teria tempo sequer para tomar o fôlego e não o fecharia sem o acabar. 
E a questão coloca-se: será que fui eu que perdi a capacidade de me obcecar pelas palavras ou foram estas que deixaram de ser hipnotizantes?

8 comentários:

  1. comigo acontece o mesmo. é muito difícil arranjar tempo para tudo e as prioridades vão mudando. só consigo ler tudo o que quero nas férias, que devoro aos 4 e 5 livros por semana. no resto do ano torna-se difícil conciliar todas as actividades que queremos fazer fora do horário de trabalho e por isso se torna difícil acabar um livro em menos de duas semanas. eu acho que não é tanto o desapaixonarmo-nos. é verdade que quando um livro não me interessa muito, é capaz de ficar dias e dias pousado na minha mesinha de cabeceira, porque eu tenho vergonha de desistir e começar um novo, então fico ali a adiar o inadiável, até arranjar coragem para o pôr de volta na estante e pegar num novo. mas também há livros que eu já comecei e quero mesmo acabar, só que o tempo escasseia e temos de fazer escolhas. a lista de espera para as férias é grande, espero dar conta de tudo. velhos tempos de faculdade em que havia tempo para ler e ler e ainda ler...

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  2. Eu decidi dar-me tempo para ler. Tenho sempre ali uma janela de tempo que poderia me permitir ler: no metro, naqueles 15 minutos de trajecto, à espera deste, naqueles cinco minutos (mas nem sempre apetece re-mergulhar num livro por apenas cinco minutos, por isso saco o telefone e navego na internet, confesso), antes de adormecer (no timing no qual normalmente vejo séries). Precisava ler mais, preciso ler mais e tenho muitos livros que me faltam na "to read list". Isto é algo no qual quero sem duvida ser melhor. E apaixonar-me perdidamente por um livro, não sei se não me acontece muito. Acho que nunca me coloquei a questão.

    Btw, Lindo post, cada expressão mais linda, o da FDP-ice dos homens e a nossa (tua/minha/mundo) obsessao por eles matou-me (no bom sentido).

    ;)

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  3. É difícil, para quem gosta de ler, especialmente em registos muito diferentes e com considerável frequência, apaixonar-se regularmente de forma marcante. Pelo menos na minha opinião.

    Leio tanta coisa, que me seduzem umas coisas, gosto de outras, mas sinto que os livros por vezes só fazem click quando mais do que pela obra em si, se ligam a nós seja por um período que passamos ou pelo apelo que fazem a sonhos/desejos que temos.

    O que não impede o meu espanto e reconhecimento perante obras magníficas que me passaram pelas mãos nos últimos tempos, como o 2666 e o Submundo (ambos uns belos tijolos). Se me apaixonei por eles? Não sei, mas tirei o máximo da nossa relação enquanto andámos envolvidos e terminámos com um sorriso e respeito da minha parte, o que já não é mau.

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  4. @Maat, obrigada pela partilha. Eu inicio imensos livros ao mesmo tempo, mas acaba por ser contraproducente, pois não me consigo dedicar a 100% a nenhum. A não ser - lá está - aos que me encantam imeditamente.
    Acho bonita essa tua "vergonha de desistir de um livro e começar um novo", confesso.
    Boa sorte agora nas férias - depois partilha connosco o que andaste a ler. Nem que seja um :)

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  5. @Elite, minha querida. Acho interessante essa tua consciente acção de auto-incentivo à leitura. Eu bem que podia ler nos 15 minutos de trajecto até ao trabalho, mas sou demasiado dada à megalomania literária. Penso sempre que preciso, no mínimo dos mínimos, de umas duas horinhas em paz e sossego para poder ler como deve ser. E depois vão passando os dias, porque nunca tenho esse tempo disponível.

    Obrigada por teres gostado do post. A "filha-da-putice dos homens" saiu-me como leite da boca de um bebé que vomita: foi tão natural :)

    Vou seguir o teu conselho durante 1 mês: tentar aproveitar os bocadinhos e treinar as minhas pupilas com um livro. Como dizia uma amiga minha no facebook - que é uma leitora ávida - ler pratica-se.

    Beijo!

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  6. @Mak,
    concordo com o que dizes que quem lê muito, não pode andar avassalado com livros por "dá-cá-aquela-palha".
    O meu livro preferido continua a ser o Brave New World do Huxley, não apenas pela óbvia excelência da obra que de facto é, mas também porque aquele livro significou um abrir de horizontes para mim. Tinha uns 18 anos quando o li e para mim lê-lo significou tornar-me adulta. Por isso é mesmo verdade que a carga emocional de um livro depende do "lugar" em que te encontras.

    Agora, numa fase de alguma turbulência emocional da minha parte, gostava de ler um livro que me "sacudisse", sabes? Um que em cada virar de página me gritasse "Ora, toma lá isto sua grande cabra!". Mais do que nunca sinto necessidade de me emocionar com arte e acho que um bom livro é a melhor maneira de o fazer.

    Alguma sugestão?:)

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  7. "Os Portugueses" grande recomendacao, qualquer livro do Saramago, "Ensaio sobre a lucidez" e mesmo muito bom. Se gostaste do Brave New World deves ler "1984" ha tantos livros que posso recomendar :)

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  8. deixa lá, rafa. comigo é a mesma coisa. tenho saudades de me apaixonar por um livro. tenho saudades de andar a correr todas as livrarias e mais algumas até encontrar "aquele", "o tal" tão esperado e por mim cobiçado livro.
    e fico muito triste com aqueles livros que compro e nada despertam dentro de mim. porque se vão amontoando a um canto, meio lidos, meio por ler, sem paixão alguma, quase que abandonados.
    para além disso, e contra a leitura e a cultura, fica ainda o preço astronómico que um livro pode custar. e eu só posso comprar quando os meus pais deixam. que isto de se ter 15 anos não é tudo um mar de rosas. mas compreendo a posição deles. neste tempo e com uma família para gerir, há que definir prioridades.

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