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Adeus querida Saia Amarela

11.7.11


Querida Saia Amarela,

Nunca pensei que este dia pudesse chegar. 

Comprei-te no ano de 2007 numa loja no fundo da Via Torino em Milão. Não era uma loja cara e não paguei mais do que 20 euros pelo teu simpático tecido e cor alegre. 

Sempre ouvi dizer que a cor amarela não é para qualquer pessoa, por isso ao ver-te naquele cabide, com a tua ligeireza têxtil e os teus discretos folhos, eu soube instantaneamente que éramos feitas uma para a outra.

Animaste-me os últimos quatro Verões. Sim, tu foste saia de uma só estação. Nunca foste bengala de guarda-roupa, não senhor. Tu foste sempre a protagonista dos meus Verões. Combinava-te com tops castanhos, brancos, pretos, cai-cais, t-shirts justas, tops de alças de todos os tipos e feitios. Cheguei a comprar alguns tops que roçavam a overdose de cor, só porque no meio dos tons havia um amarelo pálido igualzinho ao teu. Por vezes adornava-te com lenços à cintura, quando achava que os teus folhos e cor maravilhosa não eram suficientes para criar um impacto quando saía contigo vestida.

Juntas fazíamos sucesso, eu nunca to disse, mas é verdade. Tu aguentaste comigo sempre cheia de orgulho e com a qualidade inicial, mesmo depois de tantas, tantas lavagens. Suportaste as minhas oscilações de peso caladinha no teu canto e sempre me caíste bem. O meu rabo contigo era admirável e agradecer-te-ei eternamente por isso. Quando não sabia o que vestir, tu e as minhas havaianas douradas faziam a toilette. E nunca me deixaram ficar mal. 

Foste comigo a Barcelona, Valencia, Nice, Capri, Ibiza, Veneza e tantos outros lugares maravilhosos. Viveste à grande e à francesa, mas não estava preparada para te ver partir. 

Nunca pensei que este dia pudesse chegar. Eu, que sempre te mimei com todos os cuidados, um dia vacilei. Deixei-te no Algarve e a minha rica mãe misturou-te com outras roupas carregadas de inveja da tua formosura. E de tinta azul. E assim veio o triste dia em que te tornaste esverdeada, à mercê de uma qualquer lingerie baratucha. 

Nunca te cheguei a ver nesse lastimável estado, pois a minha rica mãe tomou as medidas necessárias para que tu fosses diligentemente eliminada. O meu coração enche-se de tristeza, porque nunca mais voltei a sentir o teu suave tecido. Nunca mais te apertei como o fiz em momentos de alegria ou de tensão. Mas deixo aqui uma das últimas fotografias tiradas juntas em Nice, no Verão passado. Irei sempre relembrar-te com carinho, não duvides disso.

Foi um prazer passar estes 4 anos contigo, Saia Amarela.

Até sempre. 



8 comentários:

  1. Hahahahaahahahaahahaha! mereces um prémio pelo post (sentia que tinha um final menos feliz) + uma caixa de sapatos decorada com flores para o devido enterro, não tivesse a tua mãe ja feito o servicinho ;) Now u need a new menina dos teus olhos (ou do rabo, consoante)!

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  2. Ainda há dias tive que me desfazer de uma túnica e custou-me tanto mas tanto e só me lembrava dos momentos que passei com ela...e agora esta estragada, gasta do uso...paz à sua alma

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  3. Que coisa linda! O ano passado dei cabo de uma camisola de lã preta, grossa, que me tinha sido oferecida há muitos anos (e continuava impecável) e que era a minha peça favorita. É um vazio que se apossa da gente.

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  4. Mas, onde se diz "Adeus Saia Amarela" poderá sempre dizer-se "Olá naperon exótico" ;)

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  5. O teu texto fez-me lembrar um texto da Anne Frank, sobre uma caneta de tinta permanente que lhe "morreu". Muito bem escrito! Beijinhos

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  6. Rafinha, para protegeres a tua identidade, terás de "esconder também o teu sorriso...identifica-te a milhas :)

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  7. já tinha saudades de ler o teu blog, rafa.
    adorei, mesmo! hilariante.

    de facto, damos por nós a afeiçoar-nos a objectos e, de repente, quando nos faltam, o mundo "desaba" . aconteceu-me comigo uma coisa idêntica. mas foi quando o meu computador morreu afogado e levou os meus textos todos com ele.
    felizmente, entretanto, consegui recuperá-los. e senti-me bem melhor xD

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