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Berlusquices

8.6.09



Eu moro em Milão e sou estrangeira. Além de estrangeira, sou negra.
De acordo com Berlusconi, eu sou má para o país.

C'è chi vuole una società multietnica e multicolore, noi non siamo tra questi. Non posso accettare - ha detto Berlusconi - che quando circoliamo nelle nostre città ci sembra di essere, e mi è capitato nel centro di Milano, in una città africana e non in una città europea per il numero di stranieri che ci sono.

Há quem queira uma sociedade multi-étnica e multi-cor, nós não nos incluímos nesse grupo. Não posso aceitar - disse Berlusconi - que quando circulamos nas nossas cidades, e aconteceu-me no centro de Milão, parece que estamos numa cidade africana pelo número de estrangeiros que se vêem e não numa cidade europeia. (tradução livre)

O meu amigo Hugo, também ele português, também ele residente em Milão, branco, ficou muito indignado com tal afirmação.
A minha amiga Alessandra, italiana, branca, sente vergonha de ter um Primeiro-Ministro como o Berlusconi, já pelas suas gaffes passadas, como o de um novo presidente americano "bonito, jovem e bronzeado".

Obviamente esta sua citação não se trata de uma piada sem graça - como é seu apanágio. Trata-se de uma declaração racista e algo ignorante. Eu, como estrangeira, diria por exemplo que Milão é uma cidade da América do Sul e não africana. Não há quase pretos em Milão. Isto não é Almada nem a Amadora. Mas sim, vemos muitos peruanos, colombianos, brasileiros, venezuelanos, etc. E daí? Será que o Mayor de Nova Iorque se envergonha das características multi-culturais da sua cidade? Confesso que nos dez dias que estive em Nova Iorque raramente vi um branco na rua...e não foi por isso que me senti em África.

Berlusconi que sempre colheu uma simpatia misericordiosa por parte da opinião pública, pelas suas gaffes inoportunas, mas que poderão ser confundidas com espontaneidade, pela sua vida de bon-vivant, pelo seu passado de artista - era cantor nos cruzeiros, pelo facto de ser polivalente nos seus negócios - tem uma rede de televisão e, pasme-se, tem um clube de futebol. Agora essa simpatia está a transformar-se em ódio e asco, como podemos ver pelas palavras de Saramago acerca das polémicas declarações de Berlusconi.

“Este é o primeiro-ministro italiano”, escreve Saramago, realçando que o seu comportamento vai manchar a música de Verdi, a acção política de Garibaldi e a Itália do século XIX, que foi um guia espiritual da Europa. E lança uma questão: “Será que os italianos acabarão por permiti-lo?”

Claro que sim. Não conheço um único italiano que admita ter votado em Berlusconi, mas a realidade é que ele vence sempre as eleições. Os italianos aplicam o famoso ditado inglês Better the devil you know, than the devil you don't know ao futuro do próprio país.
Resta saber por quanto tempo.

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